Passarela

Se pelo menos eu fizesse um poema

De sotaque carregado no ouvido

Pra te contar que

Ontem na passarela 7

Nem meus óculos, nem meus pés

Nem a menina vestida de sereia

Nada escorregou por entre o guarda-corpo

Segui com o queixo paralelo aos caminhões

E até espiei o entardecer

e toda sua gravidade

Quiçá um tropeço de rimas levianas sobre amor

destemor

ou liberdade

Indiferentes ao dia 20 que nem amanheceu

Das promessas vulgares cumpridas em marquises

Esperando o 639 depois da pizza ruim

Esperando respostas

Vimos a lua

As mães sempre avisam

Cabelos não se devem cortar na minguante

E as palavras caíram dos bolsos

Massas duras esmagadas

na pista por onde correm os caminhões

Nunca mais se percorreu um quarto crescente

 

Se pelo menos eu soprasse um poema

Lá da passarela 7

Que escorregasse em brasis

Que ninasse as meninas sereias

Fermentasse as massas em lascas crocantes

Cortantes

Quiçá você descobrisse que não é difícil dançar

Cadenciando pela pista do meio

No passo miúdo dos ponteiros da pizzaria

Até seu dia trazer o amanhecer do novo ano

ordinariamente esperado

leviano

 

[Você se queda ao pôr do sol

Eu conspiro lua cheia]

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trânsito

ir embora pra longe
insânia
Maputo
pertences apenas um luto
calçado de poeira
e sonho:

nascer de novo
morrer
em caixa de sapato
sem ninguém me reconhecer

Queria fazer um poema sobre frustração

queria

ia

fim

Cúspide

Eu não sei se foi o Sol entrando em Câncer às 19:34 ou a TPM, nunca entendi bem esses cálculos de ciclo, nem sei mesmo qual seria a diferença entre um dia normal e um dia de turbulências hormonais. Mas foi mesmo às 10 pra meia-noite que eu pensei em você. Uma saudade escrota, que eu fiquei catando todos os míseros momentos, tentando lembrar como era beijar sua boca e barba intrusa, como você ria quando me fazia encharcar uma cama. A sua cara rindo entre as minhas pernas e o meu peito subindo, descendo, subindo, descendo, desesperado sem ar. O exato tom da sua voz que se mostrava menos grave conforme a intimidade. Os telefonemas começando à tarde, terminando à noite cheios de silêncios ainda por dizer e desejos impronunciáveis. Todos os não posso, não dá, talvez, não sei, reticências. Os dedos na cara que não levantei. As respostas que não dei, precisas, pra te pegar na curva da tuas esquivas e te fazer tropeçar em cada uma das merdas que você, insolente, largou no meio da calçada. Cada grito enterrado entre o fígado e o plexo cardíaco, toda essa acidez pra jogar na sua cara, e agora só me restam doses de omeprazol.

E nesse ponto a minha cama já estava encharcada por todas as lágrimas que eu gozei por você.

Um brinde à coragem artesanal

A vida é cruel. Você sabe bem disso, sabe desde que nasceu, e não serei eu a passar a mão na sua cabeça. Você precisa de alguém pra dizer que você é brilhante? Pois bem, você poderia ser brilhante. Você poderia falar mais, você poderia não se contentar em não sorrir nas fotos, poderia não guardar tudo em gavetas, poderia dançar, poderia colocar a cara a tapa, poderia sair desse lugar que, ao menor passo em falso, te faz ligar a eterna gravação de como você é feliz, que tudo está bem. Mas você nem sequer consegue se comprometer com a ridícula confirmação de leitura das mensagens de celular.

É preciso parar e pensar, baby. Simplesmente ficar pensando. Não apenas na tragédia da nossa sociedade cristã-ocidental, nos genocídios, patriarcado, capital. É preciso pensar o micro. O nano. Ninguém disse que seria fácil. Se você não olha pra dentro, cada esquina em si mesmo é um tratado imperialista. Um quarteirão no outro, bomba atômica.

E eu quero revoluções.

Não, não abra mais uma cerveja agora, ainda não acabei. É preciso coragem. Não se pode amar somente na embriaguez. E não importa o valor da cerveja, se tem milho ou não, não há relação diretamente proporcional entre o seu nível artesanal e a coragem que vai encontrar nela – você não vai.

Você poderia me ter na sua vida, baby. A mulher que você ama. Não que eu esteja acima do bem e do mal, que deva ser levada a qualquer tipo de altar. Do fundo do nível mais baixo dos meus sentimentos há toda sorte de mesquinhez e mediocridade. O mesmo tipo de coisa que há aí dentro, mas que você não chega nem na metade do caminho pra conferir.

Você poderia me ter na sua vida. Se deixasse de ser tão baby.

Mar

Eu gosto muito de você

É uma coisa terna

É forte e apaziguador ao mesmo tempo

Como se fosse mar

Tem sua fúria

Sem deixar de ser plácido

Sem deixar de ser calmo

Sem deixar de ser profundo

Perene

Acordo

A fúria me lambe o rosto

Me arrebata contra o rochedo

teus braços

O espetáculo diante da praia lotada

esperando pela queda

pela cara enfiada na areia

Ninguém sabe

Que é mar que me escorre entre as pernas

Nanaia Tataia Gagaia

Nesse domingo de sol brando, de uma claridade mansa que entra devagar pela casa, o som naquela rádio de elevador repetindo as mesmas músicas há gerações, a faxina correndo na casa de vários cômodos, por um momento é como se voltássemos vinte anos, e eu poderia jurar que em instantes você passaria pelo corredor cantarolando Stevie Wonder. Eu não teria que limpar meu quarto, você entreteria meu domingo me ensinando a desenhar.

Mas a casa é outra, o tempo é outro, eu mesma devo ser outra, e a faxina não pode esperar. E mesmo que tudo se recompusesse em perfeita cópia do passado, você não apareceria, pai. Já tem dois anos e eu ainda não consigo resgatar as boas lembranças, elas estão aqui em algum lugar me afetando, mas não consigo traze-las vivas, pulsantes. Fiz o esforço de não viver recordando pra não ficar chorosa pelos cantos, mas agora, neste momento, eu queria lembrar. Tenho medo que seu rosto se desmanche na sombra dos meus pensamentos, enquanto tento não trazer a imagem do seu corpo na mesa do necrotério.

Muita coisa aconteceu desde que você partiu. Quis te contar em vários momentos, sentar com você e ter aquelas nossas conversar infindáveis, que mesmo quando não me entendia, alguma mágica fazia que mesmo assim me sentia bem e compreendida. Sentia que existia alguém no mundo sempre aberto pra mim, que me ouvia com satisfação única, e mesmo com divergências, diferenças geracionais, tinha um vazio igual ao meu aqui dentro. Acho que era por isso que a gente se dava tão bem. Éramos da mesma substância que carcomia por dentro.

Mas, voltando, aconteceram coisas que você não estava aqui pra ver. Lembra quando você, ansioso, perguntava se eu estava namorando, “menino ou menina”? A expectativa existia desde quando eu tinha 13, você meio apressado, eu atrapalhada. E demorou muito, é verdade. Queria que tivesse me visto animada comprando presentes e fazendo planos. Os planos não deram certo, comprei presentes demais, sua influência nesse lance de cuidar e paparicar não me ajudou muito não. Queria que tivesse me visto perdida sem planos, sem presentes, pra gente ter aquelas nossas conversas. Porque andei esse tempo todo vagando atrás de um lugar pra me sentir bem e compreendida, procurando um vazio igual ao meu, igualzinho esse aqui dentro, e eu rodei muito por aí. E continuo rodando, é bem verdade. Mesmo sabendo que esse lugar já não existe mais.

Conheci Brasília, é mais esquisita do que imaginava. Fui outro dia naquela sorveteria em Copacabana que você me levava quando pequena, e sinto informar que existem sorvetes bem melhores hoje em dia. Engordei um pouco, ainda tenho dívidas e promessas não cumpridas. Não moro mais naquela quitinete onde passamos nossos últimos tempos juntos. Esses tempos que me esforcei pra não reviver, em que fui tão dura, tão seca, que quase não me perdoei. Espero que você tenha conseguido.

Ah, mas se estivesse aqui agora, seria o mais orgulhoso, o mais empolgado. Tem umas coisas tão legais acontecendo, que só você entenderia como são legais. E sinto agora uma saudade tão funda da sua empolgação, estou ouvindo você vibrando, suas paródias e onomatopeias cantadas mais as inúmeras variações de apelidos pra mim, tudo acompanhado de uma dancinha ridícula, que eu só queria dançar junto agora.

Ainda não consigo lembrar, lembrar assim de um jeito tranquilo, é muito doído. Só queria te contar mesmo que a vida está ficando legal, que aprendi uma pá de coisas, estou ficando mais esperta, e acho que descobri um jeito de gostar dessa viagem. A nossa substância continua aqui, vazio que rói por dentro, mas acho que é isso mesmo que me mantém viva. Acho que é isso que te mantém vivo em mim, pai.

Um final de semana passa muito rápido

Quinta-feira você me surpreende com uma sensibilidade e consciência, que se já vi antes, não lembro. Em duas, acho que três frases, fez-se notável um cuidado que me desconcertou.

Sexta, eu me esfalfo sozinha imaginando seu gosto, os primeiros encontros, desespero pro motel, as hesitações, a entrega inescapável.

Sábado e eu ainda não consigo parar de te ver nu na minha frente.

Domingo, como vamos conciliar os sonhos de viagem com as crias, se sua ex-mulher me odeia muito ou pouco, a festa de casamento, pois sim, irei te convencer, nós dois dançando bêbados coisas dos anos 80.

Segunda. Café ralo na garrafa térmica, nossa história de amor termina no encontro de um bom-dia.

Josué!

Grito seu nome o dia inteiro, “Josué!”, sempre dou um jeito de te gritar e cada vez que você aparece é quase incontrolável o desejo de te tocar. Quase, porque daí a pouco grito de novo, pra você levar um relatório qualquer, arquivar, carimbar, e assim a gente fica o dia inteiro nessa brincadeira que você aprendeu a respeitar.

Quero você o tempo todo perto de mim. Esse corpo franzino, carne fresca, galetinho no ponto pra comer e chupar cada ossinho lambendo os beiços. Ri como se soubesse, zomba de mim, não é possível. Me exibe os dentes de aparelho numa boca tão carnuda e vermelha, sorriso de moleque sem vergonha desse bigodinho ralo que não condiz mais com a sua idade. Um menino. Que eu queria por no colo, deitar entre as pernas e ensinar como chupa uma buceta, que pra meter gostoso é preciso um bom ângulo e pressão pro seu pau bater ali depois da curva, que você pode olhar nos olhos sem medo, e se pegar a minha mão é capaz de eu te amar por uma noite inteira.

Tão novo e vive na igreja. Tão novo e quer casar, voltar pra Macaé. Você só tem 18, pretinho, vem que vou te apresentar a Lapa, te embebedar nas minhas coxas, deixa esse cabelo crescer, deixa eu te profanar. Eu te levo pro futebol, faço tua lição, até te dou de comer, se me deixar te lamber, te salgar, te lamber, sugar teu corpo pra nunca mais querer sair de dentro.  Pode me chamar de maconheira, de puta, me converter em adoradora dos seus desejos, que terão sido meus, que ainda serão seus, num vai e vem que você não cansa fácil, eu sei. Quero o seu gozo de menino, que só menino tem, sorrindo e brilhando no descanso dos meus seios.

A noivinha em Macaé terá tempo de preparar o enxoval com calma, sua transferência ainda demora, mas não carece se afobar. Vou gritar de novo, chegue seu sorriso sem vergonha, que te falo mais um par de coisas da vida, até você entender que toda vez que chamo é da ordem do modo imperativo de um desejo pungente, que a vida é intratável, e não se pode casar sem cumprir certas formalidades.

Tatuagem

Todo mundo fez cara feia pras crianças de uniforme que forçaram a porta traseira do ônibus e foram entrando com seu funk, sua bagunça, suas risadas.  Ela achou graça. Talvez porque naquele momento, em algum outro canto, em algum outro ônibus, a Beatriz tatuada no seu antebraço direito fazia o mesmo.

Ae piloto!, e metade do ônibus desceu  no Jacarezinho. Não era ponto ainda, mas sinal fechou, e foi todo mundo descendo no meio da pista mesmo, que a noite passa rápido e a vida não espera. Nem o sinal. Ela distraída se despedindo da colega, me conta depois se ficou bom, pensando se a roupa que esqueceu de molho manchou, se descongela o frango ou faz salsicha de novo, só ouviu a buzina buzinando já dentro do ouvido. Ninguém anotou a placa.

Estirada na Suburbana, ouviu um som de funk distante, pensou nas crianças de uniforme no ônibus, pensou em Beatriz, no uniforme de molho manchando. Sentiu a vista assim meio quente, meio lamacenta, mas viu ainda seu braço torto num vermelho que ora era seu bolero de viscose, ora era o mesmo visco que escorria de sua vista e chegava até Beatriz tatuada. E lembrou que o ônibus de Beatriz estava pra chegar, naquela mesma rua, aquela mesma hora, com seu funk, sua bagunça, suas risadas.

[Esse texto foi escrito para a seleção do projeto de residência literária Roendo a Machadadas, do Bando Editorial Favelofágico, da qual estou fazendo parte]